"Sereia" se eu te morrer
não sofras, não tenhas pena
vou "dormir",
diz um adeus
e dá-me um beijo ao partir
para que o sono não pese
na menina...
faz-me trancinhas douradas
põe-me lacinhos de estrelas,
que Nosso Senhor ao vê-las
esqueça as misérias passadas
e me dê a sua mão, o seu amor
para andarmos de mão dada.

"Sereia"!
enfeita a tua menina triste, tão triste,
que nunca andou no baloiço do esquecimento.
Canta-me a cantilena
dum fado em que se fale de saudade...
vê também se os corações
estão no sítio do costume
dá-me cigarros e lume
para levar na viagem...
não quero outra bagagem.

Não te esqueças "Sereia",
de me compor,
de ver bem se estou bonita ou feia,
a tua feia menina.

Vá, seja bonita,
dê um beijo aquele senhor
e sente-se,
não ponha a cabeça baixa, sorria!

Mas a menina não queria,
a menina tinha horror,
às caras feias.
As pessoas não cheiravam
como as flores…
Porquê?...
E diziam coisas feias
que ela nem sempre entendia,
o AMOR
a MORTE
o DINHEIRO
essa estrela que nos guia…
a menina só gostava da frescura dos jardins
e dos afagos da lua…
se a deixassem…
espreguiçava-se na relva, toda ao léu,
nua
como dizem que nasceu!

A menina não sabia
que as noites eram tão compridas,
a menina não dormia
pensava,
e no escuro desenhava
florestas azuis
com os seus olhos azuis de pintor abstracto.

A menina
ouviu desconhecidos ruídos
dum rato,
a menina teve medo
dum bicharoco a zumbir,
a menina quis fugir
àquela hora tão cedo
mas ficou muito quieta
a espera de ouvir cantar os pardais
e o sino da Ermida.

A menina não sabia
que a noite era tão comprida…

A menina
viu os homens de carrego ás costas,
a menina
viu os burros de carrego ás costas.
Porque é que os burros trabalham como os homens?
E os Homens?

A menina
viu as mães baterem nos filhos.
É por amor que lhes batem?
A menina no seu corpinho
desejou sentir as dores
de todos os meninos que a Terra tem.

A menina quis sofrer,
e chorou por não ter mãe…


Espaço!...
Dá-lhe espaço
A menina quer voar,
está sempre presa á orla do seu vestido.

Lá vem ela, a voltear
hesitante, sem ruído, cumprimentando, beijando,
enchendo a boca de beijos
a boca tão pequenina.

Lá vai ela, lá vai ela
parece uma borboleta
a menina.
....................

Não venhas tarde.
Não por ter medo dos papões
nem dos lobos disfarçados
nem dos burrinhos anões
que esses não fazem mal a ninguém,
mas dos Homens…

Há Homens sem coração
que estão
á tua espreita…cuidado!...
outro dia irás mais longe
com um bibinho lavado.
Diz adeus aos passarinhos
e aquela goivo encarnado,
aos ninhos,
ao carneirinho felpudo como um novelo de lã,
diz que voltas amanhã.

Um tapete feito de água,
ai que tapete tão grande,
tão macio…
A menina tirou os sapatinhos
e cautelosamente
foi molhar os seus pezinhos
virgens no Mar.

Nunca tinha visto o Mar.
Que tentação!...
E foi de repelão
roubada
á carícia do Mar.

Um dia quando eu for grande
de madrugada
hei-de entrar pelo Mar dentro.
Esse tapete sem fim
porque o Mar gostou de mim.


A porta estava aberta
um pano grosso e vermelho
ondulava e chamava
como qualquer cabaré.
O que será?
O que é?
A menina entrou
viu tanta gente quieta, de mãos postas,
e viu “bonecos” vistosos que brilhavam
na escuridão
e a olhavam…
…teve medo…

Senhores muito ricos!...
Muito bem-postos como os bonecos,
salpicavam de água
a cabeça das pessoas…

Saiu pé ante pé
E perguntou: “O QUE É?”

Era a casa do Senhor,
Pai do Mundo!
Pai de todos, o Redentor
da Humanidade.
Se esse Senhor existe, se não fez nenhuma maldade
porque está tudo tão triste.

A menina gostava,
gostava sempre de ter flores
porque as flores lhe lembravam
que a vida tinha outras cores
diferentes das que lhe davam…

Malvadas!....
Malvadas flores!...

Todos os dias ouvia
de uma cadência de sina…
Mas não tinha outros amores…
As flores não eram Malvadas
era Malvada a menina
porque adorava ter flores…



Há bonecos na aldeia!...
Hoje há bonecos na aldeia!...
Um rapazito e um tambor
gritavam á boca cheia
o acontecimento.

No adro
a menina viu um quadro
que nunca tinha visto.

Um homem de camisa cor-de-rosa
engolia uma coisa de metal
muito comprida…
uma menina com ele
mal vestida
a torcer-se toda
e a sorrir.

O povo fazia roda,
a roda batia palmas,
e o rapaz do tambor a pedir
a pedir pelas almas…
Jesus…
Porque os castigas?...


Tem cabeça
duas pernas,
a menina é inteirinha
e não dá graças a Deus.

Mas vai ali um rapaz
dá gosto da cara que trás
e nos olhos, tanta esperança…
Não tem pernas,
vai sentadinho num berço
como se fosse criança
E ouve palavras ternas…

Àquele falta-lhe um braço
mas não lhe falta alegria,
O outro vai apoiado
numa bengala
mas olha p’ras, raparigas
E fala…
Não está triste,
nem cansado.

A menina tem saúde
a menina é inteirinha
mas tem um ar desgraçado…

Vi a menina chorar
tão sentida, tão sentida
que os olhos pareciam mar,
o mar revolto da vida
minha menina…

Brinca contra as pedrinhas do chão
faz bolinhas de sabão
e corre, corre atrás delas…

Olha as abelhas dançando
esse bailado do mel
ninguém consegue prendê-las…
Faz bonecas de papel
e veste-as ao sabor da sua fantasia,
de menina triste
só aquilo que inventamos
é verdade!...
Porque a verdade que amamos
não existe.


A menina cresceu muito
tem no peito não sei o quê
que não tinha…
Nos olhos uma sombra azulada
de mulherzinha,
deviam ser mais compridos
E mais discretos, os seus vestidos,
que não cresceram com ela…

A menina já sabe estar á janela
a cozer os seus trapinhos
de enjeitada…
a fazer vestidinhos
á nova desgraçada
mas que é sua.

A menina cresceu muito!
Menina, não vás á rua!...

O sonho da menina.
Ir ao baile,
e ter um namorado
um vestido engomado
e branco
e cabelos ao alto.

Sapatos de salto
pó de arroz e musica,
muita musica
sem ouvir mais nada…

A menina foi
a menina dançou
a menina voltou
com ar desolado
e o seu lindo vestido
amarrotado…


Um dia perdeu-se toda…
Não sabia o que fazer,
só via azul…
e o mistério da ausência
envolto em nuvens de tule
a morrer…

Uma fada de olhos límpidos
e doces, olhos de suplica
aconchegou-a ao seio
embalando-a na cadência
duma bênção repousante…

A menina adormeceu,
quando acordou
tinha bibe cor-de-rosa
toda cheia de bonitos
que cantavam nostalgias…
a menina agradeceu…

A fada tinha nos lábios sorrisos infinitos
dum Mundo leve…
E a menina tem saudades
das bondades que já teve.


A menina tinha sonhos de pessoas grandes.

Sonhou que a desejavam
com amor
por ser ela a “única”,
a menina era uma vela apagada
pela morte que passou!...
A menina não podia com nada
porque a menina secou…
Mas a menina sabia
que era amada.

O amor que lhe queriam
transbordou…
Foi entornar-se num corpo
O corpo que não era seu…

E era o seu que pediam…
Esse amor transviado.

A menina quis ser homem,
fez cigarros, fumou,
e no fumo viu-se gente,
tremeu a perna, gingou
e todo o corpo visou
num espreguiçar dolente
sensual.

Aquele que estava perto fez sinal
e foi levada, a tremer
e violada…
no mais fundo do seu ser.

Pobre menina vaidosa
que sabe fazer “bonecos”…
Mais valia
que as sua mãos de magia
moldassem um ser ideal,
tal qual
como ela pretende ser…

A menina quis ser homem, coitada!...
Na sua face rosada
há uma mancha de noite branca
o amor não estava lá…

Menina vai-te deitar
e não voltes a sonhar
que és homem…
Ser homem
é servir como alimento,
a vampiros
em noites inquietas, de suspiros
e nojo.


Sabe pegar num livro e num jornal.

Por eles,
sabe as tristezas do mundo
sabe que o mundo vai mal
GUERRA! SÓ GUERRA!...
Ela não queria aprender…
Sabe pintar o seu nome
seu nome sabe escrever
mas não gosta.

Gostava de ser Ofélia
chamavam-lhe Joaquina,
gostava de ser morena
Era loira, a menina,
gostava de ser magrinha
era gorda,
gostava tanto de bifes
mas só lhe davam a couraça!...

Não gostava de ir á escola,
tinha inveja das meninas
por ter irmãos bonitos…
Gostava de falar alto
só lhe falavam baixo
p’ra menina não ouvir
e se gostava e sofria,
Gostava de não gostar.

A menina já morreu.

A menina não podia viver mais,
a menina já esqueceu
todas as mágoas que havia.

Era uma flor, não cresceu
igualzinha a outras flores.

A menina teve amores
mas nenhum lhe pertenceu.

Tem os olhinhos fechados
tem a face tão morena,
quem disse que tu és feia
menina dos meus pecados?

Minha Senhora pequena
RAINHA da tua Aldeia…

A menina já morreu.
A menina não podia viver.
Nem queria!...

MORRER PORQUE QUIS MORRER.
*****
F Neto 1981